QUANTO MAIS ENVELHEÇO

Quanto mais velha estou, mais me é  dado perceber,  que o meu espaço é sagrado e  cada vez,  gosto mais de estar só, na minha companhia. 

O barulho, assim como os diversos ruídos vindo de gente ingrata, incomodam-me. E de que maneira! 

Deixei de ter paciência para diálogos de quem não aceita divergência de opinião e que viram apenas monólogos ou confusão.
Prefiro afastar-me dessa gente e silenciar. 

Depois de tantas bofetadas, aprendi a  estar sozinha,  sentir o silêncio e a energia da paz.

Agrada-me o calor do sol, de ouvir o cantar dos passarinhos, sentir o som e o cheiro da chuva a cair na terra ou no vidro da janela e de ouvir o vento a passar e às vezes a uivar. É nas forças da natureza que encontro boas energias para seguir em frente.

Gosto  de estar sózinha na sala a escrever, ler, ouvir música, ver televisão, os programas com os quais me identifico e as notícias quanto baste, apenas para me manter atualizada com o que se passa ao redor do mundo. 
Também gosto muito de dormir sózinha, sem incomodar nem ser incomodada. O meu sono passou a ser sagrado. É meu reparador!

Faço por viver o dia-a-dia com as minhas rotinas, sem angústias, sem stress e com gratidão no coração, por mais um dia, que Deus me deu para viver! 
 
Todo o resto, deixo que passe ao largo sem me atormentar. Já deixei de querer mudar o mundo. Apenas eu é que mudei. A idade trouxe-me essa sabedoria.

Desde sempre fui recatada, dentro e fora do meu espaço. Nunca fui pessoa de grandes convivências. Tenho poucos amigos e família muito reduzida.

As visitas de familiares praticamente não existem. A filha mais velha, escolheu viver afastada e as visitas cada vez são mais esporádicas e até  os telefonemas. Com desculpas e mais desculpas,  vai afastando-se e afastando os netos (seus filhos ) da casa dos avós.

Há algum tempo atrás, quando estavam menos ocupados e a minha saúde ainda não me tinha traído muito,  eu cozinhava, preparava a mesa, recebia. Ficava feliz por os receber na minha casa e lhes poder proporcionar o que preparava com imenso gosto e carinho. Cansava-me, mas sentia-me feliz!

Hoje... Tudo se está a perder! Virem cá é longe (com carros topo de gama)e têm as agendas com os tempos muito ocupados. Os netos acham a casa dos avós uma "seca"! 

E eu, sinceramente, também já não tenho paciência, nem força para os preparativos para os receber com a preocupação de que nada falhe. Fico cansada e com  falta de energia para interagir... Não consigo fingir e eles percebem!

Apesar de gostar de estar sozinha, não estou indiferente à comunicação e interação com os outros. Preciso dela como pão para o meu bem estar físico e emocional. Mas infelizmente, na família não encontro esse abrigo. 

Por isso, procuro outras maneiras. Partilho  nas redes sociais o que escrevo. Telefono para as pessoas de quem gosto. Encontro-me semanalmente com duas amigas no café para conversarmos um pouco. Diariamente gosto de sair de manhã, beber o meu cafezinho e sempre que o meu  estado e o do tempo permitem,  caminho um pouco junto ao mar, onde eu possa respirar e sentir a aragem com que ele me presenteia. 

Enfim! Com a idade  já aprendi a estar sózinha, seja em casa ou fora e não esperar nada de ninguém.

Aprendi a ressignificar a minha vida e a  preservar a minha paz, sem stress, a fazer o que mais gosto sem necessidade de me explicar!

Vivi muitos anos pelos e para os outros. Agora, no tempo que resta e com as fragilidades que tenho, apenas quero proporcionar o melhor bem estar para mim mesma, enquanto puder. Pois, da família, nada espero! 

Maria Fernanda Ramires 🌻 




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