A MERCEARIA E A MINHA PRIMEIRA BONECA
Hoje abri as janelas da memória!
São histórias da minha história. Com a percepção de terem sido passadas ontem. Mas... contados os anos, já se passaram há muitos "ontens".
Eu, menina nascida numa vila do Alentejo, filha de pais já maduros, vim a este mundo dezasseis anos após o nascimento da minha única irmã. Talvez por isso, tivesse melhor sorte. Apanhei tempos menos austeros que permitiram-me ter um percurso de vida melhor.
Os meus pais eram donos de uma pequena mercearia. A minha mãe, funcionária da mesma, tinha a responsabilidade de a dirigir, para além das inúmeras e diversificadas atividades que exercia ao longo do dia. É claro, era coadjuvada pela minha irmã, até esta casar.
A mercearia, um pequenino espaço (quarto) da pequena casa que nos servia de habitação. Hoje certamente, teria o nome pomposo de mini mercado ou outro qualquer do género. Naquele tempo era apelidada e publicitada boca a boca, pela "mercearia da vizinha Maria Colaço".
Na rua, era identificada pelas meias portas vermelhas abertas de par em par e pelo aroma da fruta que perfumava a redondeza. Quem entrava ou passava pela rua, sentia o cheirinho do melão, das maçãs...das laranjas...consoante a época do ano.
Lá, naquele pequenino espaço, sem vitrinas, vendia-se de tudo um pouco. Tudo o que era básico, face às necessidades daquela época. Até o petróleo para os candeeiros! Poucos tinham luz elétrica. Nós não tinhamos! Hoje ... pensar numa mercearia iluminada à luz do candeeiro a petróleo... nem dá para acreditar!
Como não dá para acreditar que naquele pequenino espaço cabiam tantas coisas!
As imprescindíveis freguesas, duas ou três no máximo. O balcão de madeira e a estante, ambos feitos pelo carpinteiro da vila, o Sr. João carpinteiro. A balança de dois pratos, O bidão de petróleo, o do azeite, a saca de açúcar, os cestos com as variedades dos feijões, o do grão, a caixa do sabão azul e branco e a do sabão clarim, as caixas do Omo, o bacalhau e a grande faca fixa para o cortar, a lata do café, o frasco dos rebuçados, a lata das bolachas, as caixas da fruta da época, as sacas das batatas, das cenouras, das cebolas, as garrafas de vinho da Vidigueira, as cervejas, as Schweppes....
Tudo o que era básico, lá se vendia, com exceção da carne. Peixe... havia o bacalhau salgado e as latas de conserva de atum, cavalas e sardinhas.
É claro, tudo em pequenas quantidades, tal como o número de freguesas. As vizinhas da rua e algumas das ruas próximas.
Porém, a conversa era muita! Lá também era um lugar de encontro, de partilha e de novidades.
A minha mãe perdia-se a conversar com as clientes, por entre as pesagens da fruta, do café, do açúcar... o que fazia com que não tivéssemos horas certas para o almoço e jantar.
Os produtos vendidos na mercearia vinham das mais variadas proveniências. Do Algarve, Lisboa, Vidigueira, Amareleja ...
A mercearia da minha mãe, também proporcionava uma certa movimentação na rua, devido às diversas camionetas que vinham descarregar os produtos. O que me fazia mais confusão era o camião do petróleo, talvez por ser maior e diferente dos outros todos.
Contudo, todos eles atrapalhavam as brincadeiras da moçada que todas as tardes se juntavam na rua. Era preciso
atenção redobrada quando eu e as minhas amigas por lá brincávamos em alegre algazarra à apanhada, ao ringue, à macaca...
O senhor Rosado, homem muito simpático e falador. Um pouco rechonchudo na casa dos quarenta anos. Tinha a função de ser viajante da farinha Amparo. Anos e anos, quinzenalmente vinha de Lisboa num Austin vermelho e raramente falhava.
Após os cumprimentos e as novidades de circunstância a minha mãe, entregava-lhe as tampas das caixas da farinha Amparo que as freguesas deixavam lá para serem trocadas por prémios anunciados nos cartazes. Depois da devida troca e apresentada a nova campanha, o senhor Rosado, tomava nota da encomenda, recebia o pagamento da fatura da remessa anterior e dias mais tarde, vinha uma camioneta da empresa, fazer a distribuição relativo ao pedido efetuado.
Este senhor para nós, era considerado uma pessoa amiga e quase da família.
De vez em quando, brindava-me com um ou outro brinde, sem que eu tivesse que comer uma boa quantidade de papas da farinha Amparo. Embora não me fizesse rogada. Adorava as papas da farinha Amparo. Gosto esse, que as minhas papilas gustativas reconheciam muito bem, desde a minha condição de bebé.
O nosso amigo, para além de embelezar a mercearia da minha mãe com os cartazes a anunciar os brindes, ofereceu-me a minha primeira boneca.
Uma boneca de plástico, com algumas particularidades. Era maneta. Para além de ter perdido a mão, foi-me entregue nua.
Os cabelos eram desenhados e tinha um carrapito a sobressair da cabeça, é claro, de plástico. Com muita pena minha, não dava para desmanchar e pentear. Articulava a cabeça, os membros e as mãos.
Talvez por isso, perdera a mão e muito simpáticamente me ter sido doada.
Nem queria acreditar! Receber o precioso presente que há tanto tempo desejava. Ter uma boneca para brincar!
Depois de lhe pegar ao colo mil e umas vezes, no meu imaginário, outras mil ideias se passavam. Uma delas, como iria proteger a pobre coitada do frio?!
Por mais que a cobrisse com os trapinhos que ia arranjando, na toalha de rosto arrumada no lavatório de ferro ou no pano da cozinha que servia para limpar a louça... Que muitas vezes me serviam de ralhete. Eu tudo fazia para que a minha querida boneca não passasse frio.
É claro que não lhe poderia faltar o calor dos meus abraços e do meu colo, assim como a caminha improvisada numa qualquer caixa de cartão encontrada por lá, o que não era difícil.
Contudo, tinha um problema. Pela sua nudez e características tinha vergonha de a apresentar às minhas amigas.
Quase todas já tinham bonecas vestidas com roupinhas de fazer inveja. Tinham cabelos lindos que penteavam. Olhos que pestanejavam... e algumas até falavam...
Eram bonecas trazidas pelos familiares emigrados na França, Suissa ou Alemanha que elas ostentavam com vaidade.
Então... foi preciso dar mais dignidade e apresentação à minha " mais que tudo".
Eu, a Fernanda com cinco ou seis anos, lá me aventurei a ser designer e costureira, à boleia das aulas práticas que a senhora minha mãe me proporcionava.
Por entre picadelas da agulha, acertos na motricidade fina, orientação e ajuda da minha mãe
as roupas da boneca lá se iam fabricando.
E a minha bonequinha, aos meus olhos, ia ficando cada vez mais linda!
Acompanhou-me toda a minha infância.
Depois... permaneceu durante imenso tempo, sentada numa prateleira por cima do sofá da pequenina sala em frente à cozinha. Lá, esperou anos para brincar com a minha filha mais velha, quando esta ia passar alguns dias à casa dos avós.
Porventura, foi essa boneca, para além de me ter proporcionado bons momentos que me preencheram a infância de felicidade, penso que também impulsionou o meu gosto e aprendizagem pelas artes manuais de que me fui fazendo aprendiz.
✍️Maria Fernanda Ramires 🌻
Imagens via Pinterest
Comentários
Enviar um comentário