ENTRE OTITES E PRAIA

 

Por mais que os anos passem não consigo separar-me da infância e nem da casa que me viu nascer.  Hoje... corroída pelo tempo. Tal como eu!

Percorro os caminhos da minha origem. Raízes que alimentam e moldam quem eu sou.

Neste silêncio que fala comigo, mostra-me lembranças adormecidas que acordam de mansinho. 
Desejam entrar na minha escrita  de mãos dadas com a saudade. E eu não me faço rogada. Deixo-as entrar! 

Na  infância fui acometida de otites com muita frequência. Muitas delas com dores terríveis que me custavam muitos prantos pela noite fora e noites mal dormidas a  toda a família. Salvavam-me as injeções de penicilina que o Dr. Brando me prescrevia e aplicava-me na nádega. 

Na retina guardo a visualização da imagem do Dr. Brando. Homem de estatura baixa,  envergando a impecável bata branca e o estetoscópio  pendurado ao pescoço e na mão a tal caixinha de metal.
Quando o via tirar daquela caixinha a seringa enorme com uma agulha maior do que eu, desatava a chorar aos berros  que  entoavam pelas paredes do corredor do hospital, hoje lar da terceira idade.
 
Enquanto a minha mãe me deitava na marquesa para levar a injeção, o Senhor Doutor vendo tal pânico instalado em mim,  com a sua voz branda - a fazer jus ao seu nome - chamava de imediato a enfermeira de serviço,  a  menina Rosinha, pessoa que me conhecia muito bem.

Como eu gostava muito da "menina" Rosinha e ela de mim (na minha terra, as mulheres que não casavam eram meninas até morrer),  lá  deixava que  me segurasse as mãos, enquanto o Dr. Brando contava-me  uma pequena história de circunstância para me distrair, inventada na pressa do momento. A menina Rosinha, ajudava também a completar a mesma, por entre os olhares de reprovação da minha mãe face ao meu comportamento. 

E lá me conseguiam dar a injeção por entre gritos, histórias à pressa, mãos presas e olhares de reprovação. 

Pequenos momentos de exteriorização do medo. Para mim uma eternidade e sofrimento.  Dor em cima de dor!

Depois da saga, valia-me o afago nos meus cabelos dado pela  mão do Dr. Brando acompanhado da frase que eu mais gostava de ouvir  " Pronto! Pronto! Já está!" e o sorriso sempre simpático da Rosinha com a celebre frase " Fernandinha, amanhã vais te portar melhor! "  E lá  vinha o prémio de consolação.  A caixinha onde estava armazenado o frasquinho da injeção  que me iria servir de brincadeira e com a qual  imaginava mil e uma coisas, à falta de bonitos brinquedos.

Tantas injeções de penicilina levei! Hoje sou alérgica! 
No meio de tanta aflição, em criança, salvaram-me. Em adulta, iam-me matando. Não fosse a prontidão e o sangue frio do enfermeiro, na aplicação do antídoto, hoje não estaria cá para escrever esta história.

Para além das injeções de penicilina o médico aconselhava fazer praia.
Essa era a melhor parte do protocolo das minhas otites. 
Bendito Dr. Brando! Onde estiver, que Deus o ilumine na sua Luz!

Perante o sofrimento devido a tal maleita, na ânsia de me verem curada, os meus pais faziam o sacrifício de cumprirem tudo à risca como o médico recomendava.
E lá  arranjavam uns dinheiritos para me mandarem para a praia, por entre escolhas e renúncias do orçamento familiar.

E foram alguns anos! Foi até a minha irmã casar. Tinha eu dez anos de idade. 

É claro,  pelo trabalho árduo dos meus pais era  a minha irmã que me acompanhava e tomava para si a minha responsabilidade. Eu ia bem recomendada para lhe obedecer. Creio que nunca houve grande  problema.  Eu gostava muito dela e ela de mim. Tirando as vezes que me lavava e me "estrafegava" o pescoço. Aí o caldo entornava! Entre lágrimas e ais, ficava-lhe com raiva! 

A minha irmã nos seus dezasseis anos a mais do que eu,  para além de  amiga e responsável assumia não o papel de irmã, mas tantas e tantas vezes o papel de mãe. Deixei de aceitar-lhe tal papel quando cheguei aos tempos da minha adolescência. Em criança até gostava. Fazia-me o que a minha mãe não podia.

Voltando à história 

Íamos sempre para a praia acompanhadas com pessoas familiares de confiança dos meus pais. Era  norma obrigatória irmos acompanhadas com alguém mais velho para supervisionar o grupo de jovens. E lá íamos todos os anos, por alturas do verão passar uma quinzena na praia. 

Uns anos íamos para Quarteira, outros para Sines ou Vila Nova de Milfontes.

Ficávamos num quarto alugado ou em anexos para esse efeito que eram alugados quando lá chegávamos. Telefone não havia para se fazer a marcação antecipada. Quando não ficava apalavrado de um ano para o outro, íamos à sorte por entre recomendações. 

Adorava ir para a praia! Quando chegava perto do dia da aguardada viagem,  por entre conversas e preparação, tinha dificuldade em adormecer dada a empolgação.

Adorava tudo o que a praia me trazia.
O brincar à beira mar; o cheirinho da maresia que ainda hoje me traz bem estar; os banhos;  o brincar com a água e areia que ia buscar no meu balde; a construção dos castelos e a escavação dos pocinhos...
Tudo tão  diferente de onde eu vinha! 

Ambientava - me com facilidade ao  espaço, à cama, à comida, às pessoas...esquecia rapidamente a minha casa e até os meus pais. 

O pior era a viagem para lá chegar!

Que sacrilégio fazer viagens na camioneta da carreira! 
Que cheiro nauseabundo que emanava!  

Mal punha o pé no primeiro degrau para entrar dentro  da camioneta (hoje autocarro),  ficava logo agoniada. Era tão difícil suportar o cheiro do fumo do tabaco dos passageiros fumadores entranhado em tudo, as curvas da estrada, o tempo que demoravamos  para lá chegar...

Não havia comprimido para o enjoo que me salvasse de vomitar, por muito que dormisse ou fosse com a cabeça direitinha a olhar para a frente. Nem sequer podia apreciar a paisagem através da janela que para a minha altura, ficava bem lá no alto. Tinha que me pôr em pé em cima do banco e por vezes não chegava pela minha pequenez.

Como pagava meio bilhete ou era gratuito, dada a minha idade,  não tinha direito a um lugar no acento do banco. A minha viagem era feita  sentada no colo da minha irmã. 

Pobre irmã! Suportava o meu rechonchudo peso e as voltas do meu pequenino estômago. Lá vinha o vómito! Claro que ela já ia acautelada. Levava toalhas prontas para o efeito porque sacos plásticos não abundavam e toalhinhas de papel perfumadas nem se ouvia falar.
E depois... era suportar o cheiro. O meu e o de outros passageiros que tal como eu, sofriamos do mesmo mal.

A viagem durava uma eternidade!

Tantas horas sentadas naqueles bancos tão apertados que mal se conseguia mexer os pés, quanto mais as pernas.
Chegavamos estonteadas e estropeadas ao destino!

Se fossemos para Quarteira, eram as curvas da serra e depois o tempo que permanecíamos no Barranco do  Velho... 
Se  fossemos para Sines ou Vila Nova de Milfontes para além das curvas,  eram as mudanças de camioneta e o tempo de espera em Ourique e no Cercal.  Lembro-me de irmos comprar frutas às quintas no Cercal, enquanto esperávamos pela camioneta. 

Recordo em Sines ter assistido pela primeira vez ao fogo de artifício no castelo, aquando das festas de verão. Primeiramente quase morri de medo e depois fiquei maravilhada. Nunca tinha visto nada assim. Tão bonito!

Também recordo a visita guiada ao farol, na praia norte. A subida até ao cimo por entre as escadas estreitas e íngremes de ferro que estremeciam pela nossa passagem. Depois de tanto esforço para subir tamanha escadaria, fiquei maravilhada ao ver aquela enorme bola de vidros e o mar como nunca o tinha visto. 

Experiências que superavam as más condições do transporte, os enjoos, as curvas da estrada e o tempo de espera da viagem até ao destino. 

E as otites lá iam desaparecendo temporariamente, sem que não tivessem deixado mazelas. Ao contrário das experiências da ida à praia, que me proporcionaram bem estar  e desenvolvimento.

Bendito Dr. Brando! Gratidão!🙏

✍️Maria Fernanda Ramires❣️
In "histórias da minha história"












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