OS SESSENTA E MAIS ALGUNS


Esta jornada de grande transformação interior e exterior construída em alicerces de perdas e ausências, tem a particularidade de ser a última. De não ser passageira. Apareceu rápidamente discreta, silenciosa... 

A azáfama vivida com intensidade e amor, deu lugar, no agora,  à minha permanência sem fim,  sentada no sofá diante de um monte de fotografias da família expostas na parede, cujos sorrisos ficaram congelados no tempo.  Enquanto a vida e a azáfama decorrem apressadamente lá fora... eu já não me sinto protagonista!

À medida que o tempo me faz avançar na idade, habita em mim um silêncio profundo.  Ainda não sei se é um silêncio moribundo ou um silêncio contemplativo esculpido nas ausências.

Ausência da vida que outrora foi repleta e de repente parece ter sumido.  Onde dantes havia falta de tempo e de espaço, hoje há  um silêncio profundo incomodativo.

Silêncio que vem da vida já não ser inteira. Falta-me  movimento... sons... algazarra... 
Sinto falta da barulheira da criançada; dos  risos misturados com discussões; dos passos apressados; de portas a abrir e a fechar; de pessoas... de muitas pessoas.

A casa onde habito está a tornar-se demasiado grande. Tão grande quanto o enorme silêncio espesso que também nela habita.

Dentro dela e de mim, com o pouco tempo de que disponho e o muito que me sobra...  vou acolhendo com serenidade tamanhas ausências em meio ao silêncio ensurdecedor onde apenas oiço os meus passos a caminharem em ritmo lento na passagem apressada dos dias.

Simultaneamente, por já sentir a aproximação, tento encorajar-me para receber as implacáveis tempestades da velhice. Procuro preencher a solitude e o silêncio com o que mais gosto de fazer e escuto com atenção as dores do corpo — que, no meio de tanto silêncio, se fazem sentir com tal clareza — tentando, assim, aliviar as que ainda consigo."

✍️Maria Fernanda Ramires 🌻



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